O Café É Mesmo Inimigo do Coração? O Que a Ciência Realmente Diz
Se você toma café todos os dias, e a grande maioria dos brasileiros toma, é provável que já tenha se perguntado: isso está fazendo bem ou mal para o meu coração?
Essa dúvida é muito comum no consultório. Pacientes com pressão alta, palpitações, colesterol elevado ou histórico familiar de infarto chegam frequentemente com a mesma pergunta: preciso parar de tomar café?
A resposta honesta é: depende.
Não depende de uma opinião pessoal. Depende da sua dose, do seu horário de consumo, da sua sensibilidade individual, do seu método de preparo, do estado da sua pressão arterial e do seu perfil de risco cardiovascular.
Nesta série de três artigos, vou apresentar o que a ciência diz sobre café e coração de forma equilibrada, atualizada e acessível sem alarmismo e sem promessas exageradas.
O Café Carregou uma Fama Injusta por Décadas
Durante muitos anos, o café foi tratado como vilão cardiovascular. Essa ideia foi construída com base em estudos antigos, metodologicamente limitados, que muitas vezes não levavam em conta um fator importante: o tabagismo.
Nas décadas de 1960 a 1980, era muito comum que consumidores de café também fossem fumantes. Como o cigarro aumenta consideravelmente o risco cardiovascular, parte do problema atribuído ao café era, na verdade, causado pelo tabaco. Quando os estudos passaram a controlar esse fator, o quadro mudou bastante.
A ciência avançou. E o panorama mudou significativamente.
Hoje, as evidências disponíveis não sustentam a ideia de que o café, consumido com moderação, seja um inimigo do coração para a maioria das pessoas.
O café não é veneno. Mas também não é remédio. É uma bebida com substâncias biologicamente ativas, principalmente a cafeína, que produzem efeitos reais no organismo, e esses efeitos variam de pessoa para pessoa.
O Que os Estudos Mais Recentes Mostram?
Nas últimas décadas, grandes estudos observacionais e metanálises investigaram a relação entre consumo de café e desfechos cardiovasculares. Os resultados são, de modo geral, tranquilizadores para consumidores moderados.
Uma revisão ampla publicada no European Heart Journal (2022) observou que o consumo de duas a três xícaras de café por dia estava associado ao menor risco de morte por causa cardiovascular, e ao menor risco de arritmias, doença coronariana, insuficiência cardíaca e AVC, em comparação com quem não consumia café.
Resultados semelhantes apareceram em outros estudos de grande porte, incluindo uma revisão publicada no BMJ (2017) que analisou mais de 200 metanálises sobre café e saúde — e concluiu que o consumo moderado estava associado a menor risco de vários desfechos negativos.
Porém, atenção: associação não é causalidade.
Isso significa que esses estudos mostram uma correlação, pessoas que bebem café moderadamente tendem a ter menos eventos cardiovasculares, mas não provam que o café causou essa proteção. Podem existir outros fatores em jogo que os estudos não conseguem isolar completamente.
O que se pode dizer com responsabilidade é: o consumo moderado de café não parece aumentar o risco cardiovascular para a maioria das pessoas e, em alguns perfis, pode estar associado a benefícios. Mas isso não autoriza dizer que “café previne infarto” ou que qualquer pessoa pode consumir sem nenhuma atenção.
O Que Isso Significa na Prática?
Significa que você não precisa eliminar o café da sua rotina com base no medo. Para a maioria das pessoas saudáveis, tomar uma a três xícaras por dia não é um comportamento de risco cardiovascular.
Mas significa também que o assunto não termina aqui. Porque a relação entre café e coração tem nuances importantes, que dependem da sua pressão arterial, do seu histórico de palpitações, do seu colesterol e do método que você usa para preparar o café.
Continua na Parte 2
No próximo artigo, vamos analisar como o café influencia a pressão arterial, as palpitações e por que algumas pessoas são mais sensíveis à cafeína do que outras.
Dr. Renner Lariucci | Cardiologista
CRM 142852 | RQE 74960
AGENDE SUA AVALIAÇÃO CARDIOLÓGICA
• Consulta personalizada
• Orientação completa para você treinar com segurança e confiança.
Este artigo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta médica ou avaliação cardiológica individualizada.



Dr. Renner Lariucci - Cardiologista