Anabolizantes fazem mal ao coração?
Quem treina, cuida do corpo. Mas o anabolizante pode estar fazendo o oposto com o coração.
Anabolizantes para fins estéticos aumentam o risco de infarto, cardiomiopatia e arritmia.
O uso de anabolizantes cresceu muito além das academias de fisiculturismo. Hoje, a maioria das pessoas que usam essas substâncias são homens e mulheres que frequentam academias comuns, sem histórico esportivo de elite. Usam para crescer mais rápido, definir melhor, recuperar mais depressa.
O problema é que o coração não recebe esse crescimento da mesma forma que o músculo do braço.
O que são anabolizantes?
Esteroides anabolizantes androgênicos são derivados sintéticos da testosterona. O nome técnico não importa muito. O que importa é o efeito: eles estimulam o crescimento muscular e promovem características masculinas no organismo.
Existem indicações médicas para essas substâncias. Hipogonadismo, certas anemias, doenças que causam perda de massa muscular severa. Nesses casos, um médico prescreve, a dose é calculada para repor o que falta, e há acompanhamento regular.
O que acontece na academia é diferente. As doses são muito mais altas, o objetivo é estético, não há diagnóstico de deficiência hormonal, e o acompanhamento médico frequentemente não existe.
Essa diferença é importante. Este artigo trata do segundo caso.
Por que o coração é afetado?
O coração tem receptores para andrógenos, os hormônios que os anabolizantes simulam. Quando esses receptores são ativados em excesso, por anos, com doses suprafisiológicas, ou seja, muito acima do que o organismo produziria naturalmente, uma série de alterações começa a acontecer.
A pressão arterial sobe. O colesterol piora. As artérias acumulam placas mais cedo. O músculo cardíaco engrossa de forma diferente do que engrossa num atleta saudável. O risco de coágulos aumenta.
Essas alterações não causam sintomas no início. É por isso que elas assustam.
O que acontece com a pressão arterial?
Um estudo prospectivo que acompanhou 100 homens durante um ciclo de anabolizantes mostrou elevação média de quase 7 mmHg na pressão sistólica. Parece pouco. Mas hipertensão é uma doença silenciosa. E pressão cronicamente elevada acelera o envelhecimento das artérias.
Muitos usuários de anabolizantes nunca mediram a pressão durante o uso. Não sentem nada. O dano vai se acumulando sem avisar.
O que acontece com o colesterol?
Anabolizantes reduzem o HDL, o chamado colesterol bom. Esse é o colesterol que ajuda a limpar as artérias. Ao mesmo tempo, o LDL e a apolipoproteína B, marcadores do colesterol que se deposita nas paredes dos vasos, tendem a aumentar.
O resultado prático: as artérias ficam mais expostas à formação de placas ateroscleróticas. E isso pode acontecer em pessoas com 25 ou 30 anos de idade.
Anabolizantes causam placas nas coronárias?
Sim. Há evidências consistentes nisso.
Um estudo publicado na Circulation avaliou 86 usuários de anabolizantes com angiotomografia coronária. Quem usava anabolizantes tinha mais placas, placas maiores e um padrão que normalmente se vê em pessoas muito mais velhas. Havia também uma relação direta: quanto mais tempo de uso acumulado, mais grave a aterosclerose.
Um estudo publicado no JAMA em 2025 confirmou o achado em homens e mulheres. Após mais de 5 anos de uso acumulado, a maioria dos participantes já apresentava calcificações coronárias acima do esperado para a faixa etária.
Essas pessoas não tinham sintomas. O exame encontrou o problema antes que o coração avisasse.
O coração engrossa. Isso é ruim?
Depende.
O coração de um atleta que treina muito pode crescer como resposta saudável ao esforço. O ventrículo esquerdo aumenta, as paredes se adaptam, a função melhora.
Com anabolizantes, o padrão é diferente. A parede do ventrículo esquerdo engrossa, mas parte desse crescimento é composta de colágeno e fibrose, não de músculo funcional. O coração fica maior, mas não trabalha melhor. Ele perde capacidade de relaxar, de contrair, de responder ao esforço.
Um estudo de 2025 avaliou 164 atletas recreativos com ecocardiograma avançado. Entre os que tinham mais de 5 anos de uso de anabolizantes, 97% apresentavam massa ventricular acima da mediana normal e fração de ejeção abaixo dela. O strain global longitudinal, um marcador de como o músculo cardíaco se deforma a cada batida, estava alterado em 94% desse grupo.
São pessoas sem queixas cardíacas. O ecocardiograma mostrou o que o espelho escondia.
Anabolizantes aumentam o risco de infarto?
Os estudos mais recentes sugerem que sim, e de forma significativa.
Uma coorte dinamarquesa acompanhou mais de 1.100 usuários de anabolizantes por uma média de 11 anos. Comparados a pessoas da mesma faixa etária sem uso, os usuários tiveram risco três vezes maior de infarto agudo do miocárdio. O risco de cardiomiopatia foi quase nove vezes maior. O risco de insuficiência cardíaca foi 3,6 vezes maior.
A média de idade no início do estudo era 27 anos.
Esses dados não provam que todo usuário vai infartar. São estudos observacionais, com limitações. Mas o sinal é consistente, o mecanismo biológico é plausível, e o peso da evidência aponta numa direção clara.
Há risco de arritmia?
Sim. O mesmo estudo mostrou risco 2,26 vezes maior de arritmias diagnosticadas nos usuários de anabolizantes. A arritmia mais comum foi a fibrilação atrial.
Fibrilação atrial é uma alteração do ritmo em que os átrios, as câmaras superiores do coração, deixam de bater de forma coordenada. Aumenta o risco de AVC e de insuficiência cardíaca. É uma doença que normalmente aparece em idosos. Ver esse diagnóstico em homens com menos de 30 anos não é o esperado.
O substrato está na estrutura cardíaca alterada: hipertrofia, fibrose e remodelamento criam condições para que o circuito elétrico do coração se desorganize.
O sangue fica mais espesso?
Anabolizantes estimulam a produção de glóbulos vermelhos, o que eleva o hematócrito, a concentração de células no sangue. Sangue mais viscoso flui com mais dificuldade. O risco de coágulos, tanto nas veias quanto nas artérias, aumenta.
O estudo dinamarquês encontrou risco 2,42 vezes maior de tromboembolismo venoso nos usuários. Isso inclui trombose nas pernas e embolia pulmonar.
“Meu exame deu normal.” Isso resolve?
Não necessariamente.
Um eletrocardiograma de repouso não detecta aterosclerose coronariana, disfunção diastólica inicial ou remodelamento subclínico do coração. Exames básicos de sangue podem estar dentro dos limites de referência e o processo de dano já esta em curso.
A maioria das alterações descritas neste artigo não gera sintomas nas fases iniciais. Quando os sintomas aparecem, o problema já existe há algum tempo.
A avaliação precisa ser direcionada, feita por quem entende o contexto.
Quais sinais merecem atenção?
Dor no peito ou pressão no peito durante o esforço. Falta de ar desproporcional ao treino. Palpitações, sensação de coração irregular. Desmaio ou quase-desmaio. Pressão arterial elevada nas medições casuais. Cefaleia frequente. Queda de rendimento sem causa aparente. Histórico familiar de infarto precoce ou morte súbita.
E, naturalmente, uso atual ou passado de anabolizantes por tempo prolongado.
Qualquer um desses elementos justifica uma consulta cardiológica.
Quem deveria fazer uma avaliação cardiológica?
Qualquer pessoa que usou ou usa anabolizantes para fins estéticos, especialmente com uso acumulado acima de um ou dois anos, pode se beneficiar de uma avaliação direcionada.
A indicação de exames depende do caso. Mas a conversa com um cardiologista que entenda esse contexto é o primeiro passo.
O que pode ser avaliado numa consulta?
A consulta começa pela história: quanto tempo de uso, quais substâncias, que doses, se houveram sintomas. Depois vem o exame físico, com medida adequada da pressão arterial.
Os exames podem incluir eletrocardiograma, perfil lipídico completo com LDL, HDL e apolipoproteína B, hemograma para avaliar o hematócrito, função hepática e renal, e ecocardiograma com análise de função e, quando disponível, strain miocárdico. Em casos selecionados, o escore de cálcio coronário ou a angiotomografia de coronárias ajudam a quantificar o dano arterial.
Não são todos esses exames para toda pessoa. A indicação é individualizada.
É possível reverter os danos?
Alguns fatores de risco melhoram quando o uso é interrompido. O colesterol tende a melhorar. A pressão pode cair. Alguns estudos sugerem que a disfunção ventricular pode ter algum grau de reversibilidade após a cessação.
Placas coronárias já formadas não desaparecem. Fibrose instalada no miocárdio tampouco. O quanto reverte depende do tempo de uso, das doses e das condições individuais de cada pessoa.
A cessação do uso é um assunto que também precisa de acompanhamento. A retirada abrupta pode causar sintomas como depressão e fadiga intensa. Um médico pode orientar esse processo com mais segurança.
Exercício é investimento. Anabolizante é especulação.
O exercício físico regular é um dos poucos ativos que gera juros compostos na saúde. Cada ano de movimento acumulado paga dividendos em longevidade, função cognitiva, independência e menor risco de doenças crônicas.
Usar anabolizantes para estética nesse contexto é como um investidor impaciente que abandona a estratégia de longo prazo para apostar em ganhos rápidos. O retorno aparece rápido no espelho. O risco vai se acumulando em silêncio nas artérias. E quando a conta chega, ela pode custar muito mais do que qualquer resultado estético já valeu.
A avaliação não é julgamento
A medicina não existe para reprovar escolhas. Existe para dar informação e identificar risco antes que ele se torne um evento concreto.
Se você usa, já usou ou está pensando em usar anabolizantes para fins estéticos, uma avaliação cardiológica pode identificar o que não tem sintoma, quantificar o risco e ajudar a tomar decisões com mais clareza.
Dr. Renner Lariucci | Cardiologista
CRM 142852 | RQE 74960
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Perguntas Frequentes (FAQ)
Anabolizantes fazem mal ao coração mesmo em quem treina?
Sim. O exercício não neutraliza os efeitos dos anabolizantes sobre o colesterol, a pressão arterial, o remodelamento cardíaco e as coronárias. Os estudos mostram alterações significativas mesmo em atletas recreativos fisicamente ativos.
Qual exame detecta o dano cardíaco por anabolizantes?
Não existe um único exame. A avaliação ideal combina ecocardiograma com strain, perfil lipídico com apolipoproteína B, hemograma e, em casos selecionados, angiotomografia coronária. A indicação depende do histórico.
Parar de usar anabolizantes reverte os danos?
Alguns marcadores laboratoriais e funcionais melhoram. Placas coronárias já formadas e fibrose no miocárdio não se desfazem completamente. A extensão da reversibilidade depende do tempo e das doses utilizadas.
Só faz mal quem usa há muitos anos?
Alterações no colesterol e na pressão podem ocorrer já no primeiro ciclo. Com mais de 5 anos de uso acumulado, os estudos mostram que praticamente todos os usuários já têm alguma alteração cardíaca ou coronária ao exame.
A testosterona prescrita pelo médico tem os mesmos riscos?
Não necessariamente. A reposição em doses fisiológicas, com indicação formal e acompanhamento, é diferente do uso suprafisiológico estético. O risco cardiovascular mais elevado está documentado no segundo caso.
Referências
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Este artigo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta médica, avaliação cardiológica ou qualquer forma de orientação profissional individualizada. Caso tenha dúvidas sobre sua saúde cardiovascular, procure um médico cardiologista.



Dr. Renner Lariucci - Cardiologista