Morte súbita em atletas
Por que o check-up cardiológico antes de treinar pode salvar vidas
O coração pode parar sem dar aviso
Durante um treino de futebol, um homem de 28 anos cai no gramado. Não havia dor no peito, não havia falta de ar, não havia nenhum sinal de que algo estava errado. O coração simplesmente parou.
Casos como esse acontecem com mais frequência do que se imagina e não apenas com pessoas doentes ou sedentárias. Afetam jovens, atletas amadores, praticantes de academia e corredores de fim de semana. Pessoas que, na maioria das vezes, se sentiam perfeitamente bem.
No Brasil, estima-se que ocorram entre 200 e 300 mil paradas cardiorrespiratórias por ano. Metade delas acontece fora dos hospitais — em quadras, academias, parques e residências.
O que torna essas mortes ainda mais dolorosas é saber que, em muitos casos, elas poderiam ter sido evitadas.
Exercício físico é benéfico — mas o coração precisa estar preparado
Não existe dúvida sobre os benefícios da atividade física regular. Ela reduz o risco de doenças cardiovasculares, controla a pressão arterial, melhora o colesterol e protege contra o diabetes. Isso está amplamente comprovado.
O problema não está em treinar. Está em treinar sem saber o que se passa dentro do coração.
Durante o esforço físico intenso, a frequência cardíaca sobe, o débito cardíaco aumenta e o coração é submetido a uma demanda muito maior do que em repouso. Para quem tem o coração saudável, esse é um estímulo positivo — o coração se adapta e se fortalece. Para quem carrega alguma alteração estrutural ou elétrica ainda não diagnosticada, esse mesmo esforço pode ser o gatilho para uma arritmia grave.
O que torna essa situação especialmente perigosa é que essas alterações raramente causam sintomas no dia a dia. A pessoa treina, vive bem, se sente saudável — até que um esforço mais intenso revela o problema da pior forma.
Quem deve fazer a avaliação cardiológica antes de treinar?
A indicação vale para qualquer pessoa que vá iniciar, retomar ou intensificar uma rotina de exercícios. Mas alguns grupos precisam de atenção redobrada:
- Sedentários que vão começar a se exercitar — o coração ainda não está adaptado à nova demanda.
- Pessoas acima dos 35 anos que praticam esportes amadores — o risco de doença coronariana silenciosa cresce com a idade.
- Quem tem histórico familiar de infarto ou morte súbita — fatores genéticos têm peso real nessa equação.
- Pessoas com hipertensão, diabetes, colesterol alto ou obesidade — esses fatores multiplicam o risco cardiovascular durante o esforço.
- Jovens atletas de alta performance — apesar da boa forma física, podem ter condições cardíacas congênitas ainda não diagnosticadas.
- Quem já sentiu falta de ar, palpitações, tontura ou desmaio durante o exercício — esses sintomas nunca devem ser ignorados.
Se você se enquadra em qualquer um desses grupos — ou simplesmente quer treinar com mais segurança — a avaliação cardiológica não é um exagero. É o passo certo antes de começar.
O que acontece na consulta cardiológica?
A consulta começa pela história clínica. O cardiologista pergunta sobre sintomas atuais e passados, doenças pré-existentes, histórico familiar, medicamentos em uso e o tipo de atividade física que o paciente pretende praticar.
Em seguida, realiza o exame físico: mede a pressão arterial, avalia a frequência cardíaca e ausculta o coração — etapa em que é possível identificar sopros ou ritmos irregulares que o próprio paciente desconhecia.
Com essas informações em mãos, o médico decide quais exames complementares são necessários. Não existe uma lista padronizada. Cada pessoa é avaliada de forma individualizada.
Quais exames podem ser solicitados?
Os exames dependem da idade, dos sintomas, do histórico familiar, dos fatores de risco e da intensidade do exercício planejado. Não há um pacote fixo para todos.
Com base na avaliação clínica, o cardiologista pode solicitar:
Eletrocardiograma (ECG): registra a atividade elétrica do coração e detecta arritmias, bloqueios e alterações no ritmo. É considerado parte fundamental da triagem cardiovascular em atletas.
Ecocardiograma: ultrassom que avalia o tamanho das câmaras cardíacas, o funcionamento das válvulas e a capacidade de bombeamento do coração.
Teste ergométrico: avalia como o coração se comporta durante o esforço físico, em esteira ou bicicleta. Identifica alterações que só aparecem quando o coração está sob carga.
Holter 24 horas: registra o ritmo cardíaco durante um dia inteiro, captando arritmias que ocorrem em momentos específicos, inclusive durante o treino.
Exames laboratoriais: colesterol, triglicerídeos, glicemia e outros marcadores que impactam diretamente a saúde cardiovascular.
Em situações específicas, o médico pode indicar exames mais detalhados, como ressonância magnética cardíaca, tomografia de coronárias ou testes genéticos. Tudo depende do que a avaliação clínica revelar.
O objetivo não é fazer muitos exames. É fazer os exames certos, para a pessoa certa.
Jovens e adultos não têm os mesmos riscos
Existe um equívoco comum: achar que morte súbita é um problema de pessoas mais velhas. Não é.
Em atletas jovens, com menos de 35 anos, a causa mais frequente de morte súbita cardíaca é a cardiomiopatia hipertrófica, um espessamento anormal do músculo cardíaco, de origem genética, responsável por cerca de 36% dos casos registrados nos Estados Unidos. O que torna essa condição especialmente perigosa é o fato de raramente causar sintomas. O jovem treina, compete e vive normalmente — até que um esforço intenso desencadeia uma arritmia grave.
Outras condições frequentes nessa faixa etária incluem as anomalias congênitas das artérias coronárias, a síndrome de Wolff-Parkinson-White e a síndrome de Brugada. Todas elas são identificáveis com os exames adequados, antes que causem qualquer problema.
A partir dos 35 anos, o cenário muda. O principal risco passa a ser a doença arterial coronariana, causada pelo acúmulo progressivo de placas de gordura nas artérias que irrigam o coração. Esse processo se desenvolve silenciosamente ao longo de anos e pode se manifestar de forma abrupta durante um esforço físico.
Em ambos os casos, a avaliação cardiológica representa uma janela de oportunidade real. Estudos europeus mostraram que programas de triagem pré-participação reduziram em até 89% a incidência de morte súbita em atletas jovens.
Antes de treinar, avalie seu coração
A decisão de praticar exercícios é acertada. O que se pede é que ela venha acompanhada de uma avaliação médica feita com calma, de forma personalizada, antes de começar.
Saber que o coração está bem não diminui a intensidade do treino. Pelo contrário: é o que permite treinar com confiança, com mais segurança e por muito mais tempo.
Não espere ter sintomas. Não espere que algo ruim aconteça. A prevenção é sempre mais simples do que o tratamento.
Dr. Renner Lariucci | Cardiologista
CRM 142852 | RQE 74960
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Dr. Renner Lariucci - Cardiologista