Infarto: como reconhecer os sinais e por que cada minuto conta
No Brasil, uma pessoa morre em decorrência de doenças cardiovasculares a cada 90 segundos. Três em cada quatro dessas mortes são causadas por infarto ou acidente vascular cerebral (AVC). Diante desse cenário, saber identificar os sintomas a tempo é essencial para salvar vidas.
No contexto do infarto, o tempo é decisivo. A cada minuto sem o devido atendimento, células do músculo cardíaco sofrem lesões irreversíveis. No entanto, muitas pessoas demoram horas para procurar assistência médica por acreditarem que os sintomas vão passar ou por confundi-los com um mal-estar passageiro.
O que acontece no corpo durante um infarto?
O infarto agudo do miocárdio ocorre quando a irrigação sanguínea para uma parte do coração é interrompida. Sem o suprimento adequado de oxigênio, as células cardíacas entram em processo de morte celular.
Na maioria dos casos, a causa primária é a formação de placas de gordura nas artérias coronárias, condição conhecida como aterosclerose. Quando uma dessas placas se rompe, forma-se um coágulo que bloqueia a circulação de forma parcial ou total.
Para estabelecer o diagnóstico preciso de infarto, a equipe médica avalia dois critérios conjuntamente:
- Exame de sangue (Troponina): Identifica a presença desse biomarcador, cujos níveis se elevam na corrente sanguínea quando o coração sofre uma lesão.
- Evidência clínica de isquemia: A alteração na troponina isoladamente não confirma o infarto. É indispensável a comprovação do sofrimento cardíaco por falta de sangue, seja por meio dos sintomas relatados, por alterações no eletrocardiograma, exames de imagem ou visualização direta do bloqueio arterial.
Clinicamente, os infartos dividem-se em duas categorias principais, que determinam a conduta de urgência:
| Tipo de Obstrução | Descrição do Quadro | Conduta Médica |
| Obstrução Total | A artéria coronária fica completamente bloqueada. | Exige desobstrução imediata do vaso afetado. |
| Obstrução Parcial | O fluxo sanguíneo é reduzido, mas não totalmente interrompido. | Emergência médica com protocolo terapêutico específico. |
Existe ainda uma apresentação clínica menos frequente chamada MINOCA (sigla em inglês para infarto do miocárdio sem doença coronariana obstrutiva). Nesses casos, o paciente apresenta o quadro de infarto, mas os exames não mostram artérias entupidas. A condição responde por 5% a 10% dos diagnósticos e afeta proporcionalmente mais mulheres jovens. Entre as causas estão o espasmo coronariano (contração súbita do vaso), disfunção nos microvasos do coração ou a dissecção espontânea da artéria.
Principais sintomas e manifestações atípicas
A dor no peito representa o sinal clássico mais conhecido, contudo o quadro clínico pode se manifestar de formas variadas. Deve-se prestar atenção aos seguintes sinais associados:
- Dor ou sensação de aperto/queimação no centro do tórax, com duração superior a 20 minutos;
- Irradiação da dor para o braço esquerdo, mandíbula, pescoço, costas ou região epigástrica (boca do estômago);
- Sudorese fria sem causa aparente;
- Sensação de falta de ar e palidez;
- Náuseas, enjoos ou tontura generalizada.
Em determinados grupos — especificamente mulheres, idosos e pessoas com diabetes —, a apresentação clínica costuma ser atípica ou silenciosa. Nestes pacientes, sintomas como cansaço extremo sem explicação, falta de ar isolada ou desconforto vago nas costas e pescoço podem constituir os únicos sinais de alerta, inclusive nas semanas que antecedem o evento agudo.
Estatísticas e impacto no Brasil
As doenças cardiovasculares representam a principal causa de mortalidade no país. Dados epidemiológicos detalham a extensão do problema:
- Cerca de 400 mil pessoas falecem anualmente no Brasil por complicações cardiovasculares, o equivalente a aproximadamente 1.100 óbitos diários;
- O Sistema Único de Saúde (SUS) registrou mais de 787 mil internações por infarto agudo do miocárdio entre 2020 e 2024, com pico de 172 mil registros em 2023;
- A taxa de internações ajustada por idade apresentou elevação de 33,9% no período pós-pandemia em relação aos anos anteriores;
- A região Sudeste concentra 48,6% dos casos hospitalares relatados no país;
- Pacientes com mais de 60 anos respondem por mais de 60% das internações. Embora os homens representem a maioria dos casos, a taxa de mortalidade entre as mulheres vem apresentando crescimento proporcional superior.
Medidas preventivas e estilo de vida
A modificação dos hábitos diários atua de forma direta na redução do risco cardiovascular, complementando qualquer intervenção terapêutica medicamentosa.
As orientações preventivas fundamentais englobam:
- Alimentação equilibrada: Consumo diário de pelo menos 400 g de frutas e hortaliças; redução da ingestão de sal para no máximo 5 g diários (2 g de sódio); substituição parcial de proteínas animais por leguminosas; inclusão de peixes ricos em ômega-3 duas vezes por semana; e evitação de alimentos ultraprocessados e gorduras trans. Caso haja consumo de bebidas alcoólicas, a ingestão deve ser mantida abaixo de 100 g de etanol por semana.
- Prática regular de exercícios: Realização de 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada (ou 75 a 150 minutos de intensidade elevada), combinados a exercícios de fortalecimento muscular duas vezes por semana. Interromper períodos longos na posição sentada com caminhadas curtas também reduz a sobrecarga vascular.
- Cessação do tabagismo: Evitar o uso de cigarros convencionais e eletrônicos, além de limitar a exposição à fumaça de terceiros, prevenindo o estresse oxidativo e a inflamação vascular.
- Controle de peso e saúde mental: Reduções de 5% no peso corporal já promovem melhorias nos níveis de colesterol LDL. O acompanhamento da circunferência abdominal (alerta para valores acima de 102 cm em homens e 88 cm em mulheres) e o manejo do estresse, ansiedade e depressão são fatores essenciais no controle do risco.
Para indivíduos que já sofreram um evento coronariano, a participação em programas de reabilitação cardíaca supervisionada reduz o risco de mortalidade em até 32% e minimiza a probabilidade de novas internações.
Quando procurar o atendimento de emergência?
Diante da suspeita de um quadro agudo, a busca rápida por socorro médico é indispensável. Recomenda-se acionar imediatamente o SAMU (192) ou dirigir-se ao pronto-socorro mais próximo ao identificar:
- Dor ou pressão torácica persistente por mais de 20 minutos que não melhora com o repouso;
- Dor torácica acompanhada de irradiação para braços, pescoço, mandíbula ou dorso;
- Falta de ar súbita, acompanhada ou não de sudorese fria e náuseas;
- Perda de consciência ou tontura intensa sem causa aparente;
- Em idosos ou diabéticos: surgimento repentino de exaustão extrema ou mal-estar geral.
Em emergências, não se deve dirigir até o hospital. O acionamento do serviço 192 garante que o suporte médico especializado e os cuidados de estabilização sejam iniciados ainda no transporte de ambulância.
Considerações finais
O acompanhamento médico regular e a identificação precoce dos fatores de risco, como hipertensão, diabetes, dislipidemia e histórico familiar constituem a forma mais eficaz de prevenção. Adotar hábitos saudáveis continuamente reduz a probabilidade de eventos agudos e preserva a função cardiovascular ao longo da vida.
Referências bibliográficas
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- Thygesen K, Alpert JS, Jaffe AS, et al. Fourth Universal Definition of Myocardial Infarction (2018). European Heart Journal. 2019;40(3):237-269. ESC/ACC/AHA/WHF.
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- Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Cardiômetro: estimativa de mortalidade cardiovascular no Brasil. cardiometro.com.br
- Ministério da Saúde / Biblioteca Virtual em Saúde (BVS-MS). Dados do Global Burden of Disease (GBD) 2022. bvsms.saude.gov.br
- Ministério da Saúde. SAMU 192 e Linhas de Cuidado no Infarto Agudo do Miocárdio. gov.br/saude
Dr. Renner Lariucci | Cardiologista
CRM 142852 | RQE 74960
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